terça-feira, 13 de maio de 2008

Mestres da poesia

O poeta e professor Aleixo Leite Filho e o poeta repentista Diniz Vitorino com Cancão num registro do apologista Urbano Lima

Eu, cada vez que folheio o livro Palavras ao Plenilúnio do poeta Cancão, impressionado fico. Não só pelo rigor na rima, na métrica e na oração, mas também por ser Cancão a figura impar que é. Vejamos o que escreveu sobre ele o pesquisador, escritor e folclorista Francisco Coutinho Filho, no seu livro Violas e Repentes, de 1953, Cap. XII, pp 65/69.

“João Batista de Siqueira, conhecido pela alcunha de Cancão, é um agricultor pobre, de mãos calosas, acentuadamente introspectivo, vive preso a tristeza indissimulável de um desgosto íntimo. Ajusta-se aos derivativos de uma existência calma e conformada, no árduo trabalho da roça e no doce cultivo da poesia. É um lírico de remígios impressionantes(...) Vive na reclusão voluntária do seu tiquinho de terra no sitio Queimadas, do município pernambucano de São Jose do Egito. Nasceu lá, no dia 12 de maio de 1912. Deixou de cantar em 1950. Freqüenta a cidade, sede do município, algumas vezes, nos dias de feira, aos sábados(...)”

Em 1953, era essa a imagem de Cancão, assim como foi até o "fim da vida" em 1982, de uma simplicidade sem antecedentes. Geraldo Amâncio, grande poeta repentista, numa tarde de 06 de janeiro do ano que não me lembro, com certeza inicio da década de 1980, observava Cancão que cochilava numa cadeira enquanto Pinto do Monteiro cantava com o aniversariante do dia, Lourival Batista, em sua casa em São Zé – casa de Louro. Geraldo, logo após, indo cantar com Louro, nos primeiros acordes da viola, Cancão desperta, ao que Geraldo emenda;

Cancão as vezes parece
Não saber quem canta bem
Pinto cantando ele dorme
Eu vou cantar ele vem
Mas todo gênio e ingênuo
Não sabe o valor que tem.

Lendo e relendo seu livro, uma coletânea lançada recentemente pelo poeta Lindoaldo Junior, numa compilação de seus três livros; Musa Sertaneja, Flores do Pajeú e Meu Lugarejo, alem de poemas inéditos, fico impressionado com a magnitude de seus versos. Do poema Meu Lugarejo, extrai esta belíssima estrofe;

(...)
Esvoaçam preguiçosas
As abelhas pequeninas
Tirando néctar das rosas
Das regiões campesinas
Os colibris multicores
Pelos serenos verdores
Perpassam com sutileza
O orvalho cristalino
Lembra o pranto divino
Dos olhos da natureza.
(...)

A benção Mestre Cancão, cultivador de versos geniais e malassombrados, habitante do mundo do invisível, ainda tão presente e real em nossas vidas!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Poetas da Unicordel!

A mais bela imagem do ano!


Esta é a barragem de Brotas, em Afogados da Ingazeira-PE, sertão do Pajeú, num momento mágico para o povo sertanejo. A imagem por si só já traduz toda riqueza que tem a água pra nossa gente.
O poeta Wilson Freire descreve o curso natural das águas com grande maestria nesta bela sextilha.

A chuva afaga o lajedo
Até deixa-lo macio
Depois corre barulhenta
É correnteza no cio
Se entrega a um riacho
Engravida pare um rio.

Este é o Rio Pajeú, nossa maior riqueza.

domingo, 11 de maio de 2008

Ésio Rafael no site Interpoética!


Pra mim foi mais que uma honra participar desta entrevista. Agradeço o convite de Ésio, Cida e Sennor. Foi, na verdade, uma grande e proveitosa farra, regada a poesia e, é claro. uma cachacinha das boas! Parabéns ao site Interpoética pelo belo trabalho, pela transcrição incorrigível, pelo cuidado, incluindo ainda uma galeria de fotos.

Esta foto abaixo descreve um pouco do que foi esta tarde de março no terreiro da casa de Ésio Rafael. Clique no link acima e pode desfrutar!


Mais uma pra Zé Vicente


Em mais uma foto do poetamigo Paulo Carvalho, que tem um acervo fotográfico incrível. O poeta Zé Vicente canta com o poeta cantador Zeto. Esta cantoria está se repetindo nos salões celestiais!

Uma homenagem do poeta Zelito ao mestre Zé Vicente!

ZÉ VICENTE NO CÉU


Zé Vicente chegou no paraíso
Foi direto pra casa de Cancão
Que num abraço lhe disse – meu irmão
Você trouxe farinha e rapadura?
Cante um verso que fale da natura
De um canário voando na amplidão
Que eu lhe falo do amor da virgem pura
E a saudade que eu sinto do sertão.

Zelito Nunes

Agenda Unicordel

13/05/08 (terça)-15 h - Palestra de Altair sobre a poesia e o rádio, na Biblioteca Pública de Casa Amarela

13/05/08 (terça) -19h - Inauguração do espaço do Coletivo CÉLULA MATER - Rua da Glória, nº 310 - Boa Vista (cartaz anexo)

15/08/08 (quinta) - 20h - Recital com Altair Leal, Felipe Júnior e José Honório na Pizzaria O LENHADOR , na Lagoa do Araçá (próximo ao núcleo policial)

16/05/08 (sexta) - 15 h - Intervenção do Coletivo Oroboro na Estação Central do Metrô


Mestres da poesia

Foto Paulo Carvalho

O poeta Zé Vicente, na foto com Louro do Pajeú, viajou fora do combinado nesta sexta-feira última passada. O poeta estava hospitalizado a dias na cidade de Bezerros, e teve seu descanso merecido. Zé Vicente foi e sempre será um ícone no universo dos repentistas.

O que prende demais minha atenção
É um touro raivoso numa arena
Uma pulga do jeito que é pequena
Dominar a bravura do leão
Na picada ele muda a posição
Pra coçar-se depressa com certeza
Não se serve da unha nem da presa
Se levanta da cama e fica em pé
Tudo isso provando quanto é
Poderosa e suprema a natureza

Admiro demais o beija-flor
Que com medo da cobra inimiga
Só constrói o seu ninho na urtiga
Recebendo lição do Criador
Observo a coragem do condor
Que nos montes rochosos come presa
Urubu empregado na limpeza
Como é triste a vida do abutre
Quando encontra um morto é que se nutre
Quanto é grande e suprema a natureza

Não há pedra igualmente ao diamante
Nem metal tão querido quanto o ouro
Não existe tristeza como o choro
Nem reflexo igual ao de um brilhante
Nem comédia maior que a de Dante
Nem existe acusado sem defesa
Nem pecado maior que avareza
Nem altura igual ao firmamento
Nem veloz igualmente ao pensamento
Nem há grande igualmente à natureza

[Zé Vicente, Passarinho do Norte e Bráulio Tavares]

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Boa Nova [O livro de Cancão]

O poetamigo Lindoaldo Jr., organizador do livro Palavras ao plenilúnio, do genial poeta João Batista de Siqueira, Cancão, estará neste sábado, dia 10, no Mercado da Madalena, mas precisamente no Box Sertanejo, nos brindando com a 2ª edição do livro. Muitos me procuraram, e procuram, a procura do livro do poeta, que teve sua 1ª edição esgota quase que no lançamento. Pois bem, esta é uma ótima oportunidade de adquirir esta obra prima, não só pelo fabuloso conteúdo poético, inquestionável, bem como pelo esmero e cuidado do organizador na compilação e apresentação da obra. Pra quem não conhece Cancão, tai uma “pequena” mostra de sua grandeza poética.

CREPÚSCULO

O céu se abre num leque de rubor
A luz solar cristaliza o panorama
Se escoa e tremula sobre a rama
Tornando toda a pelúcia multicor

Os horizontes circulam de outra cor
A penumbra parece arder em chama
A última luz no ocaso se derrama
Num quadro mágico, sublime, encantador

O sol, guerreiro que veio do Oriente
Passou o dia lutando ferozmente
Da guerra trouxe seu golpe assinalado

Agoniza agora, e através da tela infinda
Pela grimpa da serra mostra ainda
A metade do rosto ensangüentado

Logo abaixo, temos dois textos, de Ésio Rafael e Meca Moreno, que dão um lustre mas adequado a obra prima do mestre Cancão!

terça-feira, 6 de maio de 2008

Um recado de Josildo Sá

Quero comemorar com todos os amigos e parceiros a indicação ao PRÊMIO TIM DE MÚSICA BRASILEIRA, na categoria de MELHOR CANTOR REGIONAL!! Agradeço a todos vocês que me incentivam e torcem pelo meu trabalho!!

PRA COMEMORAR mais essa vitória, eu estarei com minha banda fazendo temporada de forró e samba de latada neste mês de maio inteiro:

QUINTAS-FEIRAS DE MAIO: estarei no Restaurante GIO em Boa Viagem com muitos convidados. Neste próximo dia 8, 22h, os convidados são Geraldo Maia e Cézar Michilles!! Dois amigos que admiro muito.
Informações: 3325.5588

SEXTAS-FEIRAS DE MAIO: estarei no Quintal do Lima, na Rua do Lima número 100. A festa começa dia 9, as 22h, com os melhores DJs da cidade. No quintal o meu convidado desta sexta é o coquista caruaruense Herbert Lucena. Informações: 3221.6552 E 8856.6251

Conto com vocês pra gente divulgar esta temporada ok!! Um grande abraço. Josildo Sá.

Ta valendo poeta! Pode contar com a gente!!!

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mestres da poesia


O mestre maior de todos, Manoel Xudú, poeta paraibano da cidade de Pilar, um dos maiores gênios da poesia. Em certa ocasião era, insistentemente, interpelado por um ouvinte da cantoria, que lhe oferecia uma bebida enquanto o poeta cantava, o mestre Xudú saiu-se com essa pérola;


Deixe de tanta imprudência
Deixe eu findar a peleja
Como é que eu posso tocar
Cantar e tomar cerveja
Quem três gosto é cachorro
Que corre, late e fareja.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

What's Happening in Pernambuco


“O que está acontecendo em Pernambuco” é a tradução dessa coletânea lançada nos Steits pelo selo Luaka Bop do produtor e músico David Byrne. Né brincadeira não! Os caras já estavam numa coletânea que saiu a dois anos na Europa e agora invadem a terra dos ianques. É, quero ver quando os Vates serão reconhecidos por aqui!












Os irmãos Luis Homero e Miguel Marcondes [na foto acima], líderes da banda Vates e Violas, estiveram por estes dias em viajem pelo sertão dos estados da PB e PE, divulgando e mostrando seu mais novo trabalho, o CD "Quem não viaja, fica!". Em Serra Branca-PB participaram da gravação do DVD da banda Forro Gente Boa, junto a nomes como; Biliu de Capinas, Os Três do Nordeste, Nanado Alves e tantos outros.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Quem não viaja, fica! [onde comprar]


Passa Disco
Shopping Sítio da Trindade
Fone 32680888

Box Sertanejo
Mercado da Madalena
Fone 34468596

Budega de Veio
Ladeira do Amparo-Olinda
Fone 34290185

Oficina da Música
Av. Guararapes-Centro
Fone 32247654

Livraria Cultura
Paço Alfândega-Recife Antigo
Fone 21024033

Livraria Saraiva
Shopping Center Recife
Fone 34649393

Gramophone
Shopping Center Recife
Fone 34646298

Mais pontos de venda em breve!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Tá aqui, tá aqui, tá aqui, tá aqui...!


PRU SÃO JOÃO DA CAPITÁ


Essa é minha contribuição para o manifesto do amigo Anselmo Alves, transcrito logo abaixo, Eu quero o meu sertão de volta! Esse “São João da Capitá” é uma verdadeira Ode ao lixo sonoro produzido por esse encharco de bandas comerciais, onde o que menos importa é a musica!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Acunha! Josildo Sá e Paulo Moura!!!

Esses dois manifestados buliram com o quebra cabeça da música direitinho. O Samba de Latada que esses cabôco se juntaram pra fazer, é de lascar o cano e o resto da obra. Isso sem falar no povo que bóli com os instrumentos, uma banda mais que inteira. Mestre Paulo Moura exercita os pulmões da maneira mais melódica que pode existir, enquanto o vaqueiro plugado, Josildo Sá, peneira a voz num arrastado de primeira. É bonito de ver, ouvir, dançar, sentir... num deixe de ir nem que dê a gôta!!!

domingo, 13 de abril de 2008

Fala, Ricardo Anísio!


Viagem sem volta

Vates & Violas lança seu segundo CD “Quem Não Viaja, Fica!” durante apresentação amanhã no Teatro Paulo Pontes

Ricardo Anísio
ricardoanisio@jornalonorte.com.br

O grupo (ou seria melhor chamar de dupla?) Vates & Violas virou uma lenda alternativa na música do Nordeste, tanto quanto na sua riqueza poética, herança de cantadores e trovadores nordestinos que lhes foram apresentados pelo pai, o lendário cantador e poeta Zé de Cazuza. Agora com um som mais amadurecido do que no CD de estréia, eles chegam ao palco do Teatro Paulo Pontes (Espaço Cultural José Lins do Rego, em Tambauzinho) amanhã (11) mais conscientes, para lançar o segundo disco, "Quem Não Viaja, Fica". No show desta sexta-feira estarão participando os poetas Felizardo Moura (irmão de Miguel e Luiz), Marco Di Aurélio, Feitosa Nunes e Zé de Cazuza, este último, 'lambendo as crias' sobre as quais semeou tantos versos e estórias. Os ingressos para a cantoria de lançamento custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (para estudantes). A apresentação começa às 21h.

No primeiro disco, que vendeu nada menos do que dez mil cópias, sem nenhum aparato de divulgação institucional e esgrimando com a alienação reinante onde músicas pobres abocanham o mercado sem dó nem piedade, Miguel Marcondes e Luiz Homero conseguiram a respeitabilidade dos que se interessam por poesia, e por música, sem concessões. Formado em 1997, portanto já com 11 anos de caminhadas, o Vates & Violas hoje é um comboio, uma caravana, uma trupe. "Não pensamos somente como dupla, mas entendemos que somos um grupo de todos que tocam conosco e caem na estrada", disse Luiz Homero ao caderno Show em contato no Recife, semana passada.

Canções como "Ladeiras e Carnavais", "Tibumgo", "Clorofila" e "Saudade Boa" entre outras, deixam bem claro que o pó da estrada deu um cabedal maior aos vates que com suas violas em punho transgridem qualquer curso normal de que se tenha notícia na música atual. "Quem Não Viaja, Fica!" é um disco daqueles a serem catalogados como World Music, pela maneira reverencial com que tratam suas influências mas viajando por outros prados, sem a menor cerimônia. Miguel e Luiz lidam bem com os versos, prenhos de metáforas, o que faz de suas obras algo inovador sem deixar de ter o gosto de raiz.

De uma década pra cá o que lhes coube foi dar um polimento na sonoridade e trabalhar a capa do CD como lhe é devido: o futuro abraçando o passado, para construir o presente. Diríamos que, talvez até inconscientemente, Luiz Homero e Miguel Marcondes têm um que de Raul Seixas, principalmente na viagem planetária que propõe, e no despojamento musical que bebe no sertão e no espaço, sem pousar nas capitais tão frias e violentas.

"Fizemos esse disco com mais zelo, tivemos mais tempo e mais condições para dar qualidade técnica ao que já vínhamos perseguindo", disse Homero quando de nossa conversa rápida na loja Passadisco, em Recife. Eles rejeitam a pose de superstar, e suas esquisitices são naturais. Mas não entendam cá ser esquisito com ser chato, arrogante ou coisa que o valha. Eles são mesmo os bicho-grilo dos quais a urbe ainda não tirou o cheiro rural. Mas também está longe de serem fruto dessas duplas pseudo-sertanejas que empestam o mercado fonográfico.

"É importante a banda fazer um disco que pode ser levado ao palco sem muita diferença do estúdio para não decepcionar nem confundir o público", diz Miguel Marcondes para explicar que os músicos que gravaram o disco estarão no palco do Paulo Pontes amanhã.

Publicado no jornal O Norte, Paraiba, dia 10 de abril.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Meu Pajeú


Uma barragem sangrando
Água barreira a barreira
A grota na corredeira
É meu Pajeú cantando.
O meu sertão invernando
Traz fartura e alegria
Tudo que plantar se cria
Nas margens do redentor
Meu Pajeú teu valor
Eu decanto em poesia.

Jorge Filó

Foto da barragem de Brotas em Afogados da Ingazeira.
Ano de 2008.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Um ano blogando! Parabéns!!!

Me passou desapercebido que neste mês de março o nosso blog No pé da parede completou um ano em plena atividade. Mais de 3 mil pessoas visitaram nossa página neste primeiro ano - de vários que virão - o que nos enche de orgulho e vitalidade para continuar blogando. Espero – acredito que estou – estar agradando a todos que nos visitam. Um abraço a todos que passaram por aqui, e continuem fazendo parte deste terreiro que se expande pelo mundo.

Aqui no pé da parede
É onde a prosa vadeia
Nossa arte popular
A sua verve semeia
Com força e com energia
Espalhando a poesia
Respeitando a arte alheia.

Sempre que puder, nos visite, deixe seu comentário, participe com sugestões, críticas, elogios...

SEJAM SEMPRE BEM VINDOS!


Jorge Filó

quarta-feira, 26 de março de 2008

Do livro "As curvas do meu caminho"


A paixão é um rio cheio
De água clara ou escura
Pra se passar pelo meio
Sem conhecer a fundura.

Poeta Manoel Filó.

Eu assino este manifesto!!!

EU QUERO O MEU SERTÃO DE VOLTA!


Nos últimos dez anos tenho viajado freqüentemente pelo sertão de Pernambuco, e assistido, não sem revolta, a um processo cruel de desconstrução da cultura sertaneja com a conivência da maioria das prefeituras e rádios do interior. Em todos os espaços de convivência, praças, bares, e na quase maioria dos shows, o que se escuta é música de péssima qualidade que, não raro, desqualifica e coisifica a mulher e embrutece o homem.
O que adianta as campanhas bem intencionadas do governo federal contra o alcoolismo e a prostituição infantil, quando a população canta “beber, cair e levantar”, ou “dinheiro na mão e calcinha no chão” ? O que adianta o governo estadual criar novas delegacias da mulher se elas próprias também cantam e rebolam ao som de letras que incitam à violência sexual? O que dizer de homens que se divertem cantando “vou soltar uma bomba no cabaré e vai ser pedaço de puta pra todo lado” ? Será que são esses trogloditas que chegam em casa, depois de beber, cair e levantar, e surram suas mulheres e abusam de suas filhas e enteadas? Por onde andam as mulheres que fizeram o movimento feminista, tão atuante nos anos 70 e 80, que não reagem contra essa onda musical grosseira e violenta? Se fazem alguma coisa, tem sido de forma muito discreta, pois leio os três jornais de maior circulação no estado todos os dias, e nada encontro que questione tamanha barbárie. E boa parte dos meios de comunicação são coniventes, pois existe muito dinheiro e interesses envolvidos na disseminação dessas músicas de baixa qualidade.
E não pensem que essa avalanche de mediocridade atinge apenas os menos favorecidos da base de nossa pirâmide social, e com menor grau de instrução escolar. Cansei de ver (e ouvir) jovens que estacionam onde bem entendem, escancaram a mala de seus carros exibindo, como pavões emplumados, seus moderníssimos equipamentos de som e vídeo na execução exageradamente alta dos cds e dvds dessas bandas que se dizem de forró eletrônico. O que fazem os promotores de justiça, juízes, delegados que não coíbem, dentro de suas áreas de atuação, esses abusos?
Quando Luiz Gonzaga e seus grandes parceiros, Humberto Teixeira e Zé Dantas criaram o forró, não imaginavam que depois de suas mortes essas bandas que hoje se multiplicam pelo Brasil praticassem um estelionato poético ao usarem o nome forró para a música que fazem. O que esses conjuntos musicais praticam não é forro! O forró é inspirado na matriz poética do sertanejo; eles se inspiram numa matriz sexual chula! O forró é uma dança alegre e sensual; eles exibem uma coreografia explicitamente sexual! O forró é um gênero musical que agrega vários ritmos como o xote, o baião, o xaxado; eles criaram uma única pancada musical que, em absoluto, não corresponde aos ritmos do forró! E se apresentam como bandas de “forró eletrônico”! Na verdade, Elba Ramalho e o próprio Gonzaga já faziam o verdadeiro forró eletrônico, de qualidade, nos anos 80.
Em contrapartida, o movimento do forró pé-de-serra deixa a desejar na produção de um forró de qualidade. Na maioria das vezes as letras são pouco criativas; tornaram-se reféns de uma mesma temática! Os arranjos executados são parecidos! Pouco se pesquisa no valioso e grande arquivo gonzaguiano. A qualidade técnica e visual da maioria dos cds e dvds também deixa a desejar, e falta uma produção mais cuidadosa para as apresentações em geral.
Da dança da garrafa de Carla Perez até os dias de hoje formou-se uma geração que se acostumou com o lixo musical! Não, meus amigos: não é conservadorismo, nem saudosismo! Mas não é possível o novo sem os alicerces do velho! Que o digam Chico Science e o Cordel do Fogo Encantado que, inspirados nas nossas matrizes musicais, criaram um novo som para o mundo! Não é possível qualidade de vida plena com mediocridade cultural, intolerância, incitamento à violência sexual e ao alcoolismo!
Mas, felizmente, há exemplos que podem ser seguidos. A Prefeitura do Recife vem conseguindo realizar um São João e outras festas de nosso calendário cultural com uma boa curadoria musical e retorno excelente de público. A Fundarpe tem demonstrado a mesma boa vontade ao priorizar projetos de qualidade e relevância cultural.
Escrevendo essas linhas, recordo minha infância em Serra Talhada, ouvindo o maestro Moacir Santos e meu querido tio Edésio em seus encontros musicais, cada um com o seu sax, em verdadeiros diálogos poéticos! Hoje são estrelas no céu do Pajeú das Flores! Eu quero o meu sertão de volta!


Anselmo Alves
j.anselmoalves@hotmail.com

quinta-feira, 20 de março de 2008

Um soneto

Poetizando

Nenhum verso no mundo satisfaz
Meu desejo ancestral do improviso
Quanto mais faço versos, mais preciso
Fazer versos e mais e mais e mais.


O repente em mim só sente paz
Quando explode na caixa do juízo
Cada verso pra mim é pra Narciso
Um espelho a mostrar que sou capaz.


O repente acelera o pensamento
Cada verso retrata um sentimento
Que nenhum outro ser, por si, revela.


A não ser um poeta improvisando
As belezas do mundo vislumbrando
Do batente que Deus tem na janela.


Jorge Filó

terça-feira, 18 de março de 2008


Eu hoje pesquisando sobre Pinto do Monteiro, fui bater em Mário Quintana – essa tal de internet é F... –, pois bem, lendo algumas de suas citações, essas me chamaram a atenção.

“A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe”

“O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!”

Mário Quintana

Aaaaaah! Os poetas!

Aquecimento Global

Migué fazendo um som no terreiro do Ap.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Do livro "As curvas do meu caminho"

Por várias vezes, em diversos encontros, os poetas Manoel Filó e Jó Patriota, travaram grandes embates, em cantorias memoráveis. Esses encontros, sempre regados com Pitu D7ne, se davam em casas de amigos, nunca de modo profissional. E foi neste universo de simplicidade e lirismo, que saíram essas magníficas perolas improvisadas pelo mestre Manoel Filó, instigado com as deixas do poeta do lirismo, Jó Patriota..
Fiquem a vontade!



Jó

A chuva de pedra amassa
Qualquer barracão de zinco.

Manoel Filó:

No ano de oitenta e cinco
Quando chegava a tardinha
O povo chega tremia
Sabendo que a cheia vinha
Tapando as cacimbas feitas
Fazendo aonde não tinha.

Jó:

Normalmente a prostituta
Deixa o companheiro farto.

Manoel Filó:

São companheiras de quarto
Da mulher prostituída
Uma bacia com água
Uma toalha encardida
Aumentando os arranhões
No quadro negro da vida.

Jó:

Vamos cantar mais um pouco
Enquanto a chuva não cessa.

Manoel Filó:

Quando o inverno começa
Fica o mundo transformado
O mato que apodrece
No aceiro do roçado
Fica desprendendo um cheiro
De bacalhau cozinhado.

Jó:

Manoel ficou parado
Mas agora decidiu.

Manoel Filó.

João dos Passos me pediu
Que eu cantasse um pouquinho.
Mas eu me sinto cansado
Igualmente a um passarinho
Que passou o dia todo
Tangendo cobra do ninho.

Jó:

A memória fica falha
Depois que a idade cresce.

Manoel Filó:

O homem quando envelhece
Fica todo diferente.
Embora ele tenha sido
Um rapaz inteligente,
Começa aparecer falhas
Nas engrenagens da mente.

Jó:

O inverno muda o cheiro
Do campo na ventania.

Manoel Filó:

Quando a chuva principia
Se recomeça o trabalho.
Quem olhar, vê pelas plantas
Milhões de pingos de orvalho,
Como se houvesse um rosário
Pendurado em cada galho.

Jó:

Como foi ingrata a vida
Da tua mãe e da minha.

Manoel Filó:

Mãe deitava uma galinha
Numa tigela quebrada
Escorava com três pedras
E mais um caco de enxada
Para os ovos não gorarem
Se desse uma trovoada.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Mestre Chico

Na próxima sexta, dia 14, no Bar, Restaurante e espaço aberto a cultura sertaneja “Arriegua”, na Cidade Universitária do Recife, a partir do meio-dia, nosso mestre da poética sertaneja e universal Chico Pedrosa, estará comemorando seu aniversário com muita poesia, causos, musicas e a participação dos amigos. Já tem presença garantida de Amazan, Ivan Ferraz, da turma da Unicordel e mais uma penca de gente boa! Na ocasião, Chico, vai está relançando seu livro e seus Cds. Compareça e traga uma tuia grande de gente pra ver uma festa genuinamente sertaneja!

Serviço

O quê? Aniversário de Chico
Onde? Bar e restaurante Arriegua (CDU)
Quando? Dia 14 de março
Que hora? 12h (meio-dia)
DE GRATIS!!!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Dando um tempo

Meus caros poetas, estou temporariamente, impossibilitado de atualizar este blog com mais frequência. Peço desculpas a todos e em breve estarei de volta!
Um abraço!