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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Do livro "As curvas do meu caminho"

JOSÉ FILOMENO DE MENEZES
ZECA FILÓ – (IRMÃO DO AUTOR)

Poeta repentista, faleceu em 1951 aos 25 anos de idade. Devido a sua existência bastante efêmera, só foi possível recuperar este material, graças à privilegiada memória do poeta, seu amigo e companheiro de andanças – José Nunes Filho ( Zé de Cazuza). O mesmo material foi cedido para F. Coutinho – poeta paraibano, que o fez publicar em sua obra intitulada: “Violas e Repentes”


A morte é devoradora
Que a todos nós amedronta
A vida é quem faz a dívida
A morte é quem paga a conta
A vida é quem bate o prego
A morte é quem vira a ponta.

O dia do julgamento
É o dia do juízo
Os maus terão seu castigo,
E os bons o paraíso
Nesse dia é que se sabe
Quem tem lucro ou prejuízo.


Tem vezes que eu digo ui!
Tem horas que eu digo ai!
Dias que a saúde vem,
Tempos que a saúde vai,
Mas, ou em vida ou na morte
O meu mal ainda sai.


É triste uma despedida
Quando se tem amizade
Eu sou um que me despeço,
Porém, não é por vontade
Em cada aperto de mão
Sinto carinho e saudade.


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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Do livro "As curvas do meu caminho"

Erasmo e Manoel Filó


Hasteei a bandeira da saudade
No momento da minha despedida
Pois a coisa pior que tem na vida
É deixar o que é bom sem ter vontade
Isso foi quando em plena mocidade
No vagão do destino viajei
Quinze anos depois eu retornei
Pra rever meu Boi Velho berço amado
Visitando o lugar que fui criado
Tive tanta saudade que chorei.


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Boi Velho era a antiga denominação da cidade de Ouro Velho, Cariri paraibano.

O grande poetamigo Erasmo de Mimosa, como era conhecido, era um caboclo nascido no Cariri paraibano. Ninguém que eu conheça expressava com tanta veemência, sua paixão pelo repente, pela poesia dos cantadores. Erasmo costumava explodir em gritos e aplausos, em meio as cantorias, como se estivesse sufocado com a genialidade dos poetas. Boêmio e grande glosador, o “Nêgo Erarmo” tinha a verve poética impregnada da saudade do seu chão, por ter vivido a maior parte de sua vida longe do seu “Boi Velho berço amado”. A estrofe acima retrata bem esse sentimento.
A benção mestre Erasmo.



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quarta-feira, 23 de julho de 2008

Do livro "As curvas do meu caminho"

Zé Marcolino e Manoel Filó


ZÉ MARCOLINO

O CANÁRIO PRESO

Afastado da campina
Fica o canário tristonho
A tristeza lhe domina
Por ver seu irmão por sonho
Sem voar pelo baixio
Sem ver a água do rio
Aumenta sua saudade
Sem se afastar do calvário
E assim vive o canário
Privado da liberdade

Tenha pena do canário
Que não fez mal a ninguém
Fazê-lo um presidiário
Sem tirar vida de alguém
O deixe cantar voando
Que o campo está lhe esperando
Na maior ansiedade
Seja humano e consciente
Não se deixa um inocente
Privado da liberdade

A foto é do arquivo do apologista Urbano Lima e não consta no livro "As curvas do meu caminho" do poeta Manoel Filó.



quarta-feira, 26 de março de 2008

Do livro "As curvas do meu caminho"


A paixão é um rio cheio
De água clara ou escura
Pra se passar pelo meio
Sem conhecer a fundura.

Poeta Manoel Filó.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Do livro "As curvas do meu caminho"

Por várias vezes, em diversos encontros, os poetas Manoel Filó e Jó Patriota, travaram grandes embates, em cantorias memoráveis. Esses encontros, sempre regados com Pitu D7ne, se davam em casas de amigos, nunca de modo profissional. E foi neste universo de simplicidade e lirismo, que saíram essas magníficas perolas improvisadas pelo mestre Manoel Filó, instigado com as deixas do poeta do lirismo, Jó Patriota..
Fiquem a vontade!





A chuva de pedra amassa
Qualquer barracão de zinco.

Manoel Filó:

No ano de oitenta e cinco
Quando chegava a tardinha
O povo chega tremia
Sabendo que a cheia vinha
Tapando as cacimbas feitas
Fazendo aonde não tinha.

Jó:

Normalmente a prostituta
Deixa o companheiro farto.

Manoel Filó:

São companheiras de quarto
Da mulher prostituída
Uma bacia com água
Uma toalha encardida
Aumentando os arranhões
No quadro negro da vida.

Jó:

Vamos cantar mais um pouco
Enquanto a chuva não cessa.

Manoel Filó:

Quando o inverno começa
Fica o mundo transformado
O mato que apodrece
No aceiro do roçado
Fica desprendendo um cheiro
De bacalhau cozinhado.

Jó:

Manoel ficou parado
Mas agora decidiu.

Manoel Filó.

João dos Passos me pediu
Que eu cantasse um pouquinho.
Mas eu me sinto cansado
Igualmente a um passarinho
Que passou o dia todo
Tangendo cobra do ninho.

Jó:

A memória fica falha
Depois que a idade cresce.

Manoel Filó:

O homem quando envelhece
Fica todo diferente.
Embora ele tenha sido
Um rapaz inteligente,
Começa aparecer falhas
Nas engrenagens da mente.

Jó:

O inverno muda o cheiro
Do campo na ventania.

Manoel Filó:

Quando a chuva principia
Se recomeça o trabalho.
Quem olhar, vê pelas plantas
Milhões de pingos de orvalho,
Como se houvesse um rosário
Pendurado em cada galho.

Jó:

Como foi ingrata a vida
Da tua mãe e da minha.

Manoel Filó:

Mãe deitava uma galinha
Numa tigela quebrada
Escorava com três pedras
E mais um caco de enxada
Para os ovos não gorarem
Se desse uma trovoada.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Do livro "As curvas do meu caminho"

Cantando com Jó em Itaparica PE, ele termina uma estrofe dizendo:

De qualquer coisa o inseto
Deixa a casa construída

Manoel Filó:

A aranha passa a vida
Numa residência bela
Possui ferramenta própria
Para construir a tela
E a matéria prima é parte
Do peso do corpo dela.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"

Deixa de Zé de Cazuza:

A água abarrotou tudo
O riacho, o ribeirão.

Manoel Filó:

Nas terras do meu sertão
Depois de longa chuvada
Nota-se em meio à enchente
Uma cascavel zangada,
Se mudando sem querer,
Pelas águas arrastada.

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Nosso mestre Zé de Cazuza!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"



Em outra cantoria, cantava Manoel Filó e Zé de Cazuza. Era um fim de tarde. O horizonte turvo, mostrava promessa de chuva. Quando Zé entregou-lhe a deixa seguinte:

A natureza mostrando
Uma desenhada peça.

Manoel Filó:

Quando o inverno começa,
Nas mais longínquas chapadas.
O vento fica trazendo
Para as margens das estradas
Cheiro de lenha zarolha
Das brocas encoivaradas.

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Este era um de seus costumes, quando em visita ao amigoirmão Zé de Cazuza! Deitar-se sob o umbuzeiro em frente a casa dele para um coxilo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"

JOAQUIM FILOMENO DE MENEZES
JOAQUIM FILÓ – (IRMÃO DO AUTOR)

De uma família poética
Eu fui o menos dotado
Tem Manoel e Gregório
Com o Dom muito aguçado
Mas mesmo assim não me privo
E por ser muito emotivo
Está aqui meu legado

Teve o meu pai no passado
Tem Manoel no presente
Provando que este fruto
Surgiu de boa semente
E vamos pedir a Deus
Para descendentes seus
Brilharem futuramente.

Para sair neste livro
Eu a tudo me sujeito
Fingindo de ser poeta
Massageando meu peito
Se não achar adequado
Pode me deixar de lado
Que plenamente eu aceito.

Um recado sutil. Também sou poeta,
eis minha colaboração.

Tuparetama, outubro de 2003










Joaquim Filó

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"



Mais uma vez Jó entrega-lhe esta deixa:

Abelhas brigam por água
Na lama duma vazante.

Manoel Filó:

Do mês de agosto em diante
Depois que o sertão se inflama
Num tronco duma forquilha
Um cururu faz a cama
Recebendo os pingos d’água
Que um pote novo derrama.

“Uma expressão comum de pai, que aqui lhe serve muito bem, PRESTAAAANDO!!!!!!!!!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"

Biu de Crisanto, cantando com Manoel Filó, conclui uma sextilha dizendo:

Nos acidentes da terra
Canta a água no regato..

Manoel Filó:

Nas residências do mato,
Depois que o sol vai embora,
Num recanto do quintal
A galinha se acocora,
Fazendo rancho das penas
Pra não dormir pinto fora.

domingo, 11 de novembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"

Fazendo uns improvisos com o poeta Cancão a divina figura da sua idolatria, como poeta e como homem, ele lhe gratifica com a seguinte deixa:

Chove quando o vento passa
Soprando de sul a norte.

Manoel Filó:

Vai soprar um vento forte
Depois que a lua sair
A flor do moleque duro
Na campina vai se abrir
E toda folha madura
Soltar do talo e cair.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"

Outra deixa de Zé de Cazuza:

Manoel quer ir embora
Pra reencontrar seu povo.

Manoel Filó:

Namorar em mundo novo
Todas as noites eu ia
Só voltava à madrugada
Quando o sono me tangia
Molhando os pés no orvalho
Das ramas de melancia.


“As curvas do meu caminho” é o livro do poeta Manoel Filó, que transcrevo aqui, em fragmentos, do jeito que ta nele!

domingo, 23 de setembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"

Passando pela ponte Princesa Isabel em Recife, em um veículo, dirigido por Manoel, Jó Patriota avista uma bela jovem que por ali caminhava e disse:

Mulher do rosto comprido
Trajada em seda amarela

E Manoel deu esse desfecho:

Dá mais beleza ao vestido
Do que o vestido a ela.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"

Cantando com Jó Patriota na cidade de Paulo Afonso no ano de 1977. Jó termina uma estrofe com a seguinte deixa:

Quem aceita humildade
No seu canto é mais feliz.

Manoel Filó:

Eu fui ao sul do país
Não tive acesso à fartura
Voltei como um sabiá
Que sua fome só cura
Achando um pé de pimenta
Que a safra esteja madura.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"

Mais uma deixa de Heleno Rafael

O sertanejo com fome
Fica sisudo e maluco.

Manoel Filó

A seca do Pernambuco
Entrou pelo Ceará
Tem gente se alimentando
Com a raiz do quipá
E o céu da boca entupido
Com massa de jatobá.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Do livro "As curvas do meu caminho"

Darei início, a partir de agora, a uma série de intervenções do livro do meu pai, Manoel Filó “As curvas do meu caminho”. Pra começar, alguns improvisos do mestre com os amigos e parceiros de cantoria.
Os textos serão copia fiel do livro!


Em viagens rotineiras com o companheiro Heleno Rafael sempre se travava duelos de improvisos. Quando em um dos vários Heleno termina dizendo:

A seca atinge o cerrado
Tostando a vegetação.

Manoel Filó

Nas terras do meu sertão
Quando seca a açudama
A traíra se acomoda
Três, quatro meses na lama
Vivendo à custa do limo
Que conserva na escama.